A MULHER BOMBA

Fiquei esperando que ele saísse do prédio. Eu estava lá, escondida atrás da árvore, desde às 7 horas da manhã. Ele saía às 8. Já eram 8:15 e nada. Será que justo no dia em que em eu decidira tomar uma atitude, o Fofo não iria trabalhar? Não, não e não. Era uma injustiça muito grande. E eu odeio injustiças. Principalmente aquelas que acontecem comigo. Comecei a me impacientar. Reparei que as pessoas passavam por mim e me olhavam. Tão olhando o quê? Será que é tão estranho assim uma mulher de 25 anos, maquiada e com o cabelo perfeito, sem um amassadinho na roupa, estar atrás de uma árvore esperando o seu amor sair? Hein? Me deixem em paz. Programei isto meticulosamente. Não seria os olhares esquisitos dos outros que iriam me afastar do meu objetivo principal. Me agarrei na bolsa com mais força ainda, mais resolvida do que nunca a enfrentar as dificuldades em prol do Fofo. Era assim que eu sempre o chamei, desde a primeira vez que o vi. Fofo. Não sei o nome dele, idade e coisas assim. Mas o segui diversas vezes até descobrir onde ele morava e numa destas perseguições, descobri também que ele era cobrador de ônibus numa empresa não muito longe dali. Ele sempre ia a pé para o trabalho. Cheguei a andar no ônibus dele, passei e repassei diversas vezes na roleta e nada. Nada! Ele nem me notou. Seria que é por causa do meu cabelo castanho sem graça? Por via das dúvidas, pintei de loiro. Sei lá, dizem que é das loiras que eles gostam mais. Eu, pessoalmente, não vi grande melhora na minha estampa.

Distraída com meus pensamentos, senti um cutucão no braço. Levei um susto. Por milésimos de segundo, achei que fosse o Fofo. Mas era o zelador do prédio. O velho me olhou com uma cara estranha. Mais um.

— Perdida, moça?

— Perdida, por quê? — devolvi a pergunta.

— Esperando alguém?

— Por que?

— O vocabulário da senhora é muito pequeno.

— E o senhor é muito metido.

— Quer um banquinho para sentar?

— Gosto de ficar em pé.

— Ficar muito tempo na mesma posição piora as varizes. E a senhora está em pé, atrás da árvore, há um tempão.

— Não tenho varizes, meu senhor — respondi, transpirando de nervosa. Êta véio que iria atrapalhar meus planos — E suponho que esteja me vigiando, não?

— Nada mais justo para quem está vigiando alguém do prédio de onde sou zelador.

— Negativo, meu senhor.

— Positivo, minha senhora. E aconselho que a senhora retire-se antes que eu chame o síndico. E o síndico, com certeza, irá chamar a polícia.

— É crime ficar atrás de uma árvore?

— Crime não é, mas a polícia pode resolver lhe interrogar por atitudes suspeitas.

— Sou uma mulher bomba. Dentro da minha bolsa tem uma bomba que vai explodir em cinco segundos. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. BUUM! Explodiu.

O zelador me olhou com uma cara que dizia abertamente: “É louca”. E eu, na verdade, já começava a considerar que a idéia de ter ido esperar o Fofo sair, tinha sido uma roubada. Vai que eles mandassem a polícia atrás de mim? O que eu iria dizer para minha mãe? Depois do BUUM! e do olhar penalizado do velho, achei melhor bater em retirada. Andei de ré, com os olhos grudados nele e ele em mim. Notei um celular na mão direita dele. A qualquer momento ele poderia discar para o 190. E eu teria que correr, com meus saltos altos, adeus elegância. Talvez até saísse no jornal. Definitivamente, minha mãe morreria. Logo ela que pensava que eu fosse normal.

Parei do outro lado da rua, pronta para correr caso o zelador começasse a discar do celular. Nossos olhos estavam cravados um no outro, fixos. Ele não se mexia, nem eu. O velho só foi se mexer novamente para cumprimentar o Fofo, que passou por ele de mãos dadas com uma morena linda. Os dois passaram por mim e nem notaram minha existência. Meus cabelos loiros, oxigenados. Do penteado impecável. Do meu terninho novo. Senti-me a últimas das mulheres. A impressão que eu tinha era que nenhum homem sentia qualquer tipo de interesse por mim, ninguém me queria, ninguém me olhava. Só o zelador. Ele continuava lá, firme, os olhos fixos em mim.
Quis dizer a ele que eu realmente era uma mulher bomba. Uma bomba de emoções, desejos, prazeres e amores — platônicos ou não — todos mal resolvidos. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. BUUM!. Explodi.


* Para descontrair no carnaval.
Patrícia Fonseca  (1970), mora em Porto Alegre (RS). Teve dois contos publicados em um jornal local. Não tem livros editados.
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22 responses to this post.

  1. Carla Renata, pois é, kkk! Tem gosto prá tudo nesse mundo. Depois disso, nem dá prá achar você meio doida, rs…rs!Bjoksss

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  2. e depois a doida sou eu..kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk..bjoks

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  3. OH ! VERINHA, que ótimo ter você visitando aqui. Fico muito feliz com isso e mais feliz ainda porque você gostou do nosso cantinho do Óbvio. Adorei o seu comentário e também achei que ela ficou bem decepcionada com a atitude do FOFO, kkk!Um lindo feriado para você.Beijo

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  4. Olá Manoel,Vim conhecer seu blog também, esplendido.Parabéns.O texto é excelente e divertido. Nossa que decepção para ela, deveria ter pesquisado mais sobre o fofo :). Ele nem percebeu que ela existia. :(Adorei seu blog estava lendo os outros textos todos interessantes.Também estarei te perseguindo. Seja sempre bem vindo ao meu cantinho.Um maravilhoso feriado, beijinhos.

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  5. Como Melhor Logo Emagreço, bom demais é ter você aqui participando do nosso cantinho do Óbvio. Sempre que puder venha compartilhar conosco.bjoooos

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  6. Bah, kkkkkkk! Você é um amor de pessoa!Kisu!

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  7. Ana Paula, também acho que a Patrícia tem pique para um livro. Vou procurar por mais textos dela. Tudo que eu publico (a não ser os já falecidos, kkk!) eu faço questão de entrar em contato com o autor. Se não conseguir de imediato, chego o mais perto que posso e depois geralmente me escrevem. Isso é gratificante de um lado e do outro evita a impressão de estar "pirateando" textos, não é?Um ótimo feriado para vocês tambémBeijo

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  8. Renata, que bom ter você aquí no nosso cantinho do Óbvio. Um domingo maravilhoso para você também. Feliz por você aqui e volte sempre.Grande abraço

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  9. Excelente texto. Concordo com a Chica que um livro da Patrícia seria fabuloso.Deu para descontrair sim imaginando a cena!Beijo e bom feriado!

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  10. Ana, é verdade mesmo. Amor platônico… Fiquei feliz com o carinho do seu muito bom.Um grande abraço

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  11. ✿ chica, bomba é bomba, né? Kkkkkkk!Um abração

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  12. Rebeca, kkk! Bom você ter gostado. Se você clicar no nome dela na postagem poderá ver pistas sobre a Patrícia Fonseca.Um carnaval de "nevascas" para vocês aíBeijosxoxo

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  13. Mariseven, fico muito feliz por você ter gostado e até ter alegrado o seu diaGrande abraço

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  14. Não me identifico em nada com ela rs… Às vezes as intenções são boas, mas as atitudes demonstram o contrário rs. "Deusulivre" de mim ter alguém me encarando achando que sou uma stalker auahahuaaKisu!

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  15. Bom demais…adorei..buuummm

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  16. Manoel acho que esse texto é a tradução perfeita da tpm rsrs.Ótima domingo pra vc. Abraços

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  17. Nossa! Coitada… quem nunca teve um amor platônico? Mas seguir alguém, é o cúmulo do amor platônico! rsrsrs… muito bom!

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  18. Patricia escreve muito bem.Daria um lindo livro escrito por ela! E sai de perto quando as mulheres estão assim, quase ,quaaaaaaaase, quaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaase explodindo e ainda, avisando,rs…abração,tudo de bom,chica

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  19. "E eu odeio injustiças. Principalmente aquelas que acontecem comigo." Que graça!!!!!Adorei, Manoel! hahahahahaJá virei fã da Patricia Fonseca! Vou pesquisar mais textos dela!Abração amigo e um ótimo carnaval!!!!Rebecaxoxo

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  20. Muito bem escrito. Muito bom em tudo! Ri muito. Um abraço.

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  21. Mara, kkk! Tem tudo a ver mesmo. Nem tinha pensado nisso. Foi pura coincidência. Pode preparar o filme! rs…rs.Beijo no seu coração

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  22. Oi Manoel, um ótimo feriado para você e quanto ao texto você pode ter certeza que todas as mulheres são mulheres bomba. Tenta mexer com uma mulher na na TPM rsrsrsr.Bj no coração

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