ONDE ESTÁ A BELEZA DAS CONCHAS ?

Imageby Aryane Silva

Hoje fui surpreendida por uma chamada comercial na tevê, onde uma mulher linda e magra não curtia a praia com seus amigos por se achar gorda. Uma voz ainda perguntava-a: você acha que está preparada para colocar um biquíni? Esta mesma voz sugeria que ela se alimentasse com um cereal qualquer, na garantia que isso a faria ficar mais magra do que ela já era. Se cereal fosse a solução do problema, crianças americanas seriam esquálidas, desnutridas e magrelas.

Nesta mesma semana, abri o jornal e li que uma atriz paulista linda, morreu numa mesa de cirurgia, graças a uma lipoaspiração mal sucedida. Tudo isso porque certamente ela se achava pouco digna do papel como protagonista para a trama de sua própria vida. Com certeza ela acreditou que alguns litros a menos de gordura a faria ser bem aceita, mais aplaudida e pessoas em todo o canto do país pagariam para assistir seu espetáculo por este motivo. Ilusão. Pagamos menos de cinco reais para assistir as cortinas se fecharem, tudo estampado na primeira página.

O mesmo motivo acometeu a sanidade de uma história real narrada pelo canal Discovery, onde uma mulher tinha vários bonecos de ventriloquismo, e os tratava como se fossem pessoas, levava-os para todos os lugares possíveis e conversava com eles. Tudo porque na adolescência ela tinha dificuldades em se relacionar por ter um corpo rechonchudo e um rosto repleto de espinhas. Os bonecos eram sua fuga. Apenas um atalho de seu mundo real.

Minha vizinha de dezessete anos veio à minha casa contar que comprou uma calça trinta e seis, quando veste quarenta e dois só para que ela sirva de incentivo ao emagrecimento. Uma menina linda, cheia de vida, com um carisma encantador, só come alface, evita refrigerante e não vai a festas de amigos porque precisa perder alguns quilos para exibir um corpo imaculado na praia. Eu escutei a narrativa e ri disso. É só o que posso fazer.

No ano passado, outra vizinha de quarenta anos morreu com uma parada cardíaca, por conta de remédios que prometiam o milagre da perda de peso em dias. Deixou duas filhas e um marido mortificado, apaixonado e saudoso, que a única coisa que faz diariamente é trabalhar e mais nada. Essa não teve a mesma sorte que a de dezessete ainda tem.

Eu me pergunto onde essa coisa toda de “imagem versus aparência” vai parar. Penso em quantas felicidades são desperdiçadas nesses rótulos plásticos e mal acabados que as pessoas vestem como se fosse a coisa mais normal do mundo. Tanta risada largada às traças, tanto encontro adiado, só porque um pedaço de bolo de chocolate pode acabar com as chances de conseguir um amor, peguete, namorado, namorido, o que for. Tanto desencontro pela vida, desprezo pelo que realmente é importante. Tanto corpo bonito, carregando uma mente vazia e um coração mais inabitável ainda. E ainda querem um alguém… Um certo alguém… Acabam com um Zé Ninguém.

Sinto saudades das conversas no portão até altas horas, onde uma “dobrinha” na barriga não era motivo de chacota. Falta-me a valorização do caráter, dos valores, da vida compartilhada, dos sorrisos distribuídos ao longo da vida, de braços dados com a essência que cada um carrega, mas que para alguns evaporam. Sinto a ausência de pessoas que são e não precisam aparentar para serem. Pessoas de carne e osso e não pele e osso.

O verão está chegando. E lá vem a mesma ladainha de novo. As conchas voltam para o mar.

A ilusão nossa de cada dia.

* Triste essa escravidão, não acham???!!!

Aryane SilvaSou moradora do Rio de Janeiro, tenho vinte e oito anos, sou taurina e apaixonada por literatura e todo tipo de arte. Sou autora de um blog (amoremletras.wordpress.com), tenho uma página no Facebook (https://www.facebook.com/pages/Amor-em-Letras/447323928650864), além de ser umas das autoras do Recanto das Letras. Este ano ganhei o concurso “Brincar de Ler” do Instituto Ecofuturo. Sou estudante do curso de Letras.

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10 responses to this post.

  1. Eu sempre me aceitei. Mas entendo quem não consegue ser feliz com o corpo que tem e deseja mudar. Mas tem certas coisas que passam dos limites. Morrer na mesa de cirurgia nem sempre é culpa da pessoa que busca a felicidade num corpo mais legal, mais aceitável e sim do profissional que aceita fazer o trabalho. Aliás, é uma via de duas mãos, tanto do profissional, qto da pessoa que deve ter consciência que há riscos envolvendo qq tipo de cirurgia.

    Kisu!

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  2. É lamentável essa ditadura da beleza imposta por nossa sociedade evidentemente doente. A perda de peso deve ter como fator fundamental a saúde, e só. O que passa disso é realmente pura escravidão. Ótima reflexão Manô! Gr. Bj.!

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  3. Agradeço por ter escolhido minha crônica! Beijo e muita luz!

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  4. Posted by Olivia Alves on 2 de dezembro de 2013 at 7:37

    Adorei o texto, o tema e a forma como ela escreve!

    beijo

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  5. Manoel,

    Esta reflexão me deu vontade de partilhar duas experiências muito diferentes que vivi a vários anos de intervalo:

    A primeira, quando eu tinha apenas 20 anos, foi no Mali, onde vi uma menina de 14 anos, tão magra e tão carenciada, que já nem força tinha para se segurar de pé. Irmã de 6 mais jovens, ela preferia que eles comessem o pouco que havia e, geralmente, nada sobrava para ela…

    A segunda, quando eu já tinha ultrapassado os 30 e numa missão muito diferente, a de outra menina da mesma idade que a primeira, tão “maltratada” pela imagem que a sociedade lhe enviava, que se deixou desfalecer lentamente até não ter mais forças para se segurar de pé…

    Infelizmente, nada pude fazer, nem para uma nem para outra. Mas dá vontade de mostrar às empresas que explorar o desconforto e a falta de confiança da adolescência, os desastres que provocam em mentes que ainda se constroem.

    Uma leitura que me emocionou….

    Uma excelente semana para você, Manoel!
    Abraços!

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    • Dulce, eu é que me emocionei com a sua partilha. Eu tenho dentro de mim aquele ideal de “salvar o mundo” e fico muito triste quando vejo minha impotência diante de situações como essa. E olha que eu não sou nenhum adolescente acreditando em algumas organizações mundiais de ajuda. Isso é duro de ver. Claro que não desanimo, mas procuro dar conta de tudo que está dentro de minha capacidade. O resto coloco nas mãos de Deus.
      Adorei seu comentário tanto quanto adoro você por aqui. Sua experiência de vida é muito importante para partilhar conosco.
      Uma excelente semana para você também, Dulce!
      Grande abraço

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