MANCHAS

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Postagem original publicada no Blog Amor em Letras

by Aryane Silva

Eu gosto de contar algumas histórias pessoais para que as pessoas que a lerem vejam que nada é esse bicho de sete cabeças todo que a gente imagina. Sei que me exponho muitas vezes, me revelo demais, mas tem coisas, dentre as tantas páginas que há no livro da minha vida, que pode servir para alguém, seja como puxão de orelha ou apenas compaixão.

Hoje, ao terminar um dos meus inúmeros banhos (já que esse calor do Rio de Janeiro nos impõe isso), percebi que minha pele está bem manchada. Isso se deu por conta de uma reação alérgica a algum remédio que eu tomei quando tive um problema de saúde esse ano. Desde maio sei que as feridas e manchas são por causa disso, mas eu nunca tinha me importado, até me olhar no espelho hoje. Pensei: “droga, mais um verão sem piscina ou praia”. Ano passado, a desculpa era o corpo que não estava legal. Esse ano são as manchas. E a cada ano, invento uma desculpa para evitar algo que eu adoro, já que tenho piscina em casa.

Então lembrei do filme “Ferrugem e Osso”. Se alguém que ler isso ainda não viu, veja. É uma lição de desprendimento físico. O filme conta a história de uma jovem que era treinadora de baleias naqueles parques aquáticos e perde as duas pernas num acidente (calma, não estou contando o final do filme, isso acontece no início) e de um cara que passa pelas piores situações para sobreviver com o filho (dele eu não posso falar muito, pois a parte mais chocante, o limite acontece no final do longa-metragem). Enfim, histórias de superação. Coisas que me fascinam, como eu sempre digo. Aquele tapa na cara bem dado que a vida te dá.

E me imaginei na situação da treinadora de baleias. Se ela pudesse voltar no tempo e não perder as pernas, será que se importaria com algumas manchas e deixaria de aproveitar algo que gostasse?

Como a gente é pequeno, não é? Por qualquer besteira estamos adiando felicidades. Por qualquer cabelo esquisito, falta de roupa nova, pneuzinho ou espinha, deixamos de estar com quem nos quer bem, nos faz sorrir, alegra nosso espírito. Qualquer coisa boba é motivo para desmarcar encontro, não ir a festas, não visitar um amigo.
Eu vou dizer uma coisa: meu cabelo já caiu por causa da medicação que tomei, perdi a pele dos lábios por causa disso, roí todas as unhas até ter todos os dedos machucados, isso quando elas não quebravam por si só, tive alergia, emagreci demais, engordei o dobro, mas não estou aqui? Quanta gente passa por coisa pior, e está aí, sempre sorrindo? Quanta gente perde tudo e reconstrói, perde o emprego dos sonhos e ressurge em um mais simples, que enfrenta um divórcio complicado, mas volta amando? A vida é feita de movimento. E temos que nos adaptar a eles.

Meus queridos, se hoje está ruim, amanhã pode estar também, esteja preparado. Mas pode ser que no sábado você sonhe com um lugar lindo, abra a janela e veja esperança num dia bonito e seu coração se encha de força para você lutar. E a gente corre atrás, pula degraus, perde oportunidades, mas outras novas surgem, nos entregamos, esfolamos a alma, mas conseguimos, porque é para isso que viemos, para CONQUISTAR! Pode levar um dia (como aqueles que ganham na Mega da Virada), pode levar anos, como os que acordam às quatro da manhã por vinte anos e ao vigésimo primeiro passam no concurso público sonhado, mas dá certo. Precisamos estar preparados e ter a sabedoria da paciência.

Eu tive um chefe que era arquiteto (eu era a secretária dele), que por sinal eu adorava pelo coração imenso que ele tinha, que certa vez me falou um pouco de sua vida. Disse que só se formou em arquitetura aos trinta e dois anos, que o primeiro carro que teve foi comprado com trinta e oito e que só saiu da casa dos pais com quarenta, quando se casou. O sonho dele era ser pai e a esposa já tinha engravidado quatro vezes, perdendo o bebê em todas elas. Quando eu comecei a trabalhar com ele, ela estava grávida pela quinta vez e ele sempre estava tenso, com medo que aquele filho não viesse. Ela era submetida a injeções diárias como tratamento para que a gravidez fosse adiante. E foi. Ele nasceu lindo, está com seus três aninhos, dando muita alegria para o meu ex-chefe.

Esse é dos meus: nunca deixa de acreditar.

E não deixa que esse mundo cruel, de aparências, maldade, onde se prioriza o que berra e o que é vaidoso, dite as regras.

Precisamos estar inteiros na alma. O que está de fora é reflexo.

* Não é muito especial o modo de pensar da Aryane???!!!

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16 responses to this post.

  1. O culto da aparência destruiu o bom senso e a auto-estima.
    É pena que o parecer tome sempre mais importância que o ser.
    É preciso maturidade, respeito por si próprio e pelos outros, uma boa dose de aceitação e alguma força de vontade para ultrapassar os preconceitos.
    Há ainda tanto caminho a percorrer…

    Beijo, Manoel!

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    • Dulce, lendo o seu comentário me lembrei de um escrito seu em que você conta detalhes do seu voluntariado no Mali. Com essa experiência de vida que você teve, falar em cultuar o “parecer” é uma piada. Concordo com você que há ainda muito caminho a percorrer e em função de mexer com cabeças é sempre lento e gradual.
      Beijo no coração

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  2. Nossa, que texto lindo! Novamente me fez parar para refletir e me fez pensar em compartilhar um história minha e que talvez possa ajudar outras pessoas. Quem sabe! 😉

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  3. Lindo mesmo, Manoel!

    “Como a gente é pequeno, não é? Por qualquer besteira estamos adiando felicidades. Por qualquer cabelo esquisito, falta de roupa nova, pneuzinho ou espinha, deixamos de estar com quem nos quer bem, nos faz sorrir, alegra nosso espírito. Qualquer coisa boba é motivo para desmarcar encontro, não ir a festas, não visitar um amigo.”

    A certeza de mais um dia (só um dia) pode suprimir o fato de que hoje é dia. Seja o primeiro, o segundo, o do meio ou o último. Sendo eterno ou finito.
    Se as felicidades são apenas alguns atos da vida, que sejam muitos e intensos.

    Abraços,
    Rosallye

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  4. Ótima maneira de pensar. As vezes é bom assistir filmes como esse “Ferrugem e Osso” ou até mesmo vivenciar situações complicadas para nos animarmos e percebemos que nossos “problemas” são minúsculos.
    Beijos

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  5. Esse texto me veio em muito boa hora. Obrigada, amigo, por compartilhar essa história bonita.

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  6. Sem dúvida. Bonito testemunho! Beijo

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  7. Agradeço o carinho, Manoel!

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