OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA – Parte 2/3

Imageby Evandro Gussi

No artigo anterior, refletimos sobre o real significado da liberdade humana (parte 1) e o papel que as normas e as autoridades desempenham em relação a esse valor fundamental para a existência do ser humano. Vimos, de maneira geral, que, a princípio, o papel das normas é justamente garantir nossa liberdade e não negá-la. No entanto, sabemos que a realidade concreta nem sempre é assim, e, em diversas oportunidades, a humanidade experimentou leis que, longe de serem libertadoras, foram causa de grande opressão.

Nosso objetivo nesta série é, justamente, compreender em que circunstâncias podemos, legitimamente, descumprir as normas em submissão à consciência. Para isso, precisamos compreender o que é verdadeiramente a consciência humana, pois este termo é geralmente confundido com gostos, inclinações e instintos subjetivos. Sob essa perspectiva, seguir a consciência é seguir aquilo que simplesmente se quer fazer, independente de estarmos diante do bem ou do mal.

Nessa concepção, a consciência é simplesmente “uma instância que nos dispensa da verdade” e não aquela janela que nos permite sair de nós mesmos para nos encontrarmos com a questão fundamental da “verdade”, que, em termos bem simples, significa a adequação de nosso intelecto à realidade (segundo a expressão clássica: adaequatio rei et intellectus). Para nos determos em um exemplo, a frase “o cachorro está próximo a mim” é verdadeira se, e somente se, o cachorro estiver realmente próximo; do contrário, diremos que essa frase é falsa.

Nesse caso, a percepção da verdade é simples, pois estamos falando de um objeto concreto – o cachorro –, e os nossos sentidos (a visão, a audição etc.) nos oferecem grande ajuda. No entanto, quando pensamos nas condutas humanas (no modo como agimos), os tempos atuais nos apresentam um problema grave, pois já não parece mais possível dizer que uma determinada concepção sobre o ser humano é verdadeira; tudo dependerá exclusivamente daquilo que o indivíduo “achar”, e, para isso, erroneamente, tem-se utilizado a expressão “seguir a consciência”.

Para compreendermos, autenticamente, o que é a consciência, devemos partir de alguns pressupostos: em primeiro lugar, que a verdade existe; em seguida, que o ser humano é capaz de encontrá-la em seus julgamentos. Quando, portanto, conversamos com alguém, esse ato se justifica, porque ambos querem encontrar a verdade, que pode estar com um dos interlocutores, parcialmente em ambos ou alheia aos dois. Se um diálogo não tem por objetivo a verdade, ele passa a não ter mais sentido.

Esse é o drama daquilo que tem se chamado a “ditadura do relativismo”, segundo a qual tudo é relativo, inclusive nossas percepções e ações. Seguindo essa concepção, desde que a pessoa tenha seguido a sua “consciência superficial” (suas primeiras impressões), ela está justificada. Esse argumento procurou, inclusive, justificar as barbáries cometidas pelos nazistas ao exterminarem milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial, já que, nesse contexto, eles acreditavam que contribuíam para um mundo melhor.

A consciência, contudo, não é expressão de uma soberba individualista pela qual nos julgamos deuses, como sugeriu a primitiva serpente, mas a memória de Deus que habita em nós. Reconhecemos, pela fé e pela razão, que existe, em cada um de nós, uma capacidade de atração para o bem e de repulsa pelo mal, e que podemos realizar juízos adequados acerca da bondade e maldade de uma determinada ação.

* No próximo artigo, veremos como se desenvolve, em cada um de nós, essa “voz interior”, que nos recorda quem somos, de onde viemos, para onde vamos e qual papel ela desempenha em nossa vida social.

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16 responses to this post.

  1. Tá sendo muito útil nesse momento da minha vida.
    Eu fechei o acesso público do meu blog. Se quiser visitar, mande email para romina@hotmail.com.br pra eu te autorizar querido!

    Kisu!

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  2. Manoel,
    O ser humano, por mais independente que se pretenda, terá sempre tendência a obedecer. A experiência de Milgram, repetida alguns anos atrás, continua a dar os mesmos resultados…
    Porque sem Aquele que a amiga Cris menciona acima, somos apenas vivos e não vivemos…
    Grande abraço!

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  3. Amigo, adorei o novo layout. Ficou bem aconchegante e a escurecida na tela é um descanso para os olhos rs. Sobre o texto, preciso concordar com uma de suas leitoras que disse que ele começou a usar termos e abordar conceitos que sao bastante discutíveis e por isso é difícil chegar a uma única conclusão. Vamos ver o que o próximo texto trará.
    Beijos

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    • Paulinha, muuuuito obrigado pela análise e percepção da mudança de layout. Fico feliz por ter gostado e saiba que uma das causas da mudança foi mesmo por causa do excessivo brilho da tela. Cansava demais a vista. No dia em que eu estava testando layouts uma amiga me mandou um e-mail perguntando se o blog tinha virado camaleão porque cada vez que ela passava por lá ele estava de uma cor, rs…rs. De fato foi uma bagunça mesmo. Tudo fora de centro e foco, mas no fim deu certo (por enquanto, rs).
      Bem, vamos ao que interessa… Concordo com vocês a respeito dos conceitos e também vou aguardar o final dessa matéria.
      Estou meio na correria e com saudades de você!
      Beijos,
      Manô

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  4. E eu aqui, meu caro, ao ler-te penso em Dionísio e na loucura que ele nos propõe onde certo e errado são dogmas mal empregados – da mesma maneira que o bem e o mal também o são.
    O seu exemplo, de imediato me fez pensar naqueles que perdem um animal de estimação e, passa dias a percebê-los. Logo, o animal, não está ali – mas sua presença sim. O mesmo acontece com a morte humana. Sei de pessoas que ainda coloca o prato na mesa mesmo anos após a morte do marido…
    Enfim, a questão da consciência é um tema complicado e, pede muita reflexão – acho que depende de cada um e, obviamente de suas próprias convicções. A religião embute no humano um tipo de consciência que o faz temer a deus e, as vezes a si mesmo, mas também alimenta o preconceito permitindo uma espécie de ausência de consciência… As regras de convívio social também permite um tipo de consciência mecânica que nos faz saber que é errado ofender ao outro, mas o fazemos em silêncio para não ferir as regras inventadas…
    Enfim, preciso parar de escrever e, começar a revirar minhas reflexões acerca do tema.
    Saudades de ti meu caro,
    bacio

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    • Antes de ir, deixo T.S.Eliot pra você.

      “Não deixaremos de explorar e, ao término da nossa exploração deveremos chegar ao ponto de partida e conhecer esse lugar pela primeira vez”.

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    • Lunna, muito legal o seu comentário. Você colocou todas as possibilidades de convivência com esses conceitos. Acho meio esquisito, mas respeito, a pessoa ainda colocar o prato do falecido no seu lugar na mesa. Embora entranhemos, eu até diria que “cada louco com sua mania”. Não é mesmo?
      Também estou com saudades e devendo uma mensagem, rs…rs.
      bacio

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      • Adorei o “cada louco com a sua mania” meu caro. Eu acho que a mente é algo complexo e a questão da consciência mais ainda. Há pouco conversava com o Marco sobre isso, sobre deixar ir, virar a página e não levar consigo para o dia seguinte e ele disse “nem todos conseguem esvaziar a consciência” e, eu pensei “a reflexão continua”… Bacio

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        • Lunna, o “cada louco com a sua mania” é um chavão interessante e o que você colocou é mais interessante ainda. De fato, tudo que rola na mente é complexo. No meu modo de entender as coisas, de exato temos mesmo a matemática. O resto é tudo baseado em estatísticas (nada contra) e comparações. Levando isso para o estudo da mente, imagine a gente, sabendo que não existem duas pessoas iguais, tentando justificar que tal pessoa é tão inteligente quanto o Bill Gates ou o Tiririca. Não dá para definir nada. Se o Tiririca fosse menos inteligente não teria conseguido a votação que teve. O trabalho que ele fez foi direcionado para vencer as eleições. E venceu! Olhando então o ponto de vista do Marco,… as noites ficarão muito pequenas para discutirmos e refletirmos nas mesinhas de bar de Sampa, não é? Mas!…
          bacio

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  5. Verdade, justiça, inclinação para o bem: conceitos muito discutíveis. abs.

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  6. Manô,

    não sei se você concorda mas para mim só existe um que pode me convencer do errado, da justiça e do juízo. E, eu sei que você sabe de quem falo. Gr. Bj.!

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