AUTISTA

Imagemby Fabrício Carpinejar

“Tom tem 2 anos e é autista. Ele não é diferente de ninguém. É como deveríamos ser: vulneráveis.

Tom não mente, não engana, não se protege como a gente. Um menino inteligente ao extremo. Sua inteligência é sensibilidade. Não descansa um minuto de sentir. De piscar comparações. De fazer operações matemáticas e musicais.

Uma pomba na janela é um terremoto. Um tombo na bicicleta é um colisão de estrelas. Mexer os cabelos é um aplauso. Não há suavidade disponível para sua absorção.

O conhecimento é feito por descobertas chocantes que exigem a mobilização do corpo inteiro. É como se toda a lembrança fosse sublinhada. É como se toda a observação fosse inesquecível. Tom me encara de lado, seu ouvido é que me olha. Ele busca não interromper o ritmo das coisas.

Os objetos têm sangue. Os objetos têm porta-retratos. Os objetos têm rosto.

Imagine se você realizasse tarefas escutando seu batimento cardíaco? Este é o autista.

Com o ouvido de dentro e o ouvido de fora, simultâneos. A porta da sala bate na sala e no coração. O vento assobia na janela e no coração.

Eu amo muito o Tom porque nunca vi um pai como Godá. Godá é aparentemente desajeitado, boêmio, bagunçado. Mas se dedica ao filho com uma delicadeza disciplinada que somente existe no interior dos animais selvagens. Sua paciência é um presépio inesperado no deserto. Ele explica três, quatro vezes, sem nunca alterar a doçura do timbre. Sem jamais apresentar irritação pela repetição. Ainda que esteja compondo ou ocupado com a vida adulta, para a respiração e se põe a conversar. Usa as mãos com gestos lentos de giz. Toda resposta é nova mesmo que seja antiga. A atenção pede a mirada firme e cúmplice, com duas colheres de açúcar.

Tom pega o arroz com os dedos. Godá se aproxima e mostra que o garfo é mais divertido do que a mão. Tom volta a comer com a mão. Godá insiste que o garfo é uma extensão de boneco. Uma luva de robô. Tom entende por cinco minutos, e Godá rearticula a fábula acrescentando um detalhe a mais de ternura.

Naquela casa, a noite é tarde demais, a biblioteca é longe demais. As histórias estão pousando a qualquer instante.

Tom beija a televisão. Godá diz que a televisão muito perto machuca os olhos. Tom beija de novo a televisão. Godá pede beijo no lugar da televisão. O pai é um televisor que não prejudica a boca. Tom ri alto. E beija o pai. Para depois voltar a beijar a televisão.”

* A base desse relacionamento só pode se chamar  amor.

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12 responses to this post.

  1. Pessoas como o Tom e o Godá são especialmente escolhidas… São de uma hombridade singular simplesmente admirável. Conheço alguns desses anjos e admiro demais todos eles. Literalmente matam um leão por dia, com uma delicadeza comovente. Sinto vergonha das minhas fraquezas como mãe quando penso neles. Adorei Manô!

    Gr. Bj.!

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    • Cris, penso da mesma forma que você e o que mais me admira é a naturalidade com que se relacionam. Eu ainda tenho muito a aprender nisso porque, por pena da pessoa, eu exagero no tratamento, quando na realidade a pessoa quer ser tratada normalmente dentro do modo de sentir ou pensar dela. Preciso me acostumar mais a isso.
      Beijo Grandão,
      Manô

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  2. Manoel,
    É amor daquele que nem com um grande “A” se pode escrever. É dedicação além de tudo o que podemos conceber.
    É desse amor que o mundo tem sentido a falta… precisamos de mais Toms e Godás…
    Gr. Bjo!

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  3. muito bom Manoel. Meu filho está no espectro de autismo. Ele tem sindrome de Asperger. E amo muito ele. Tb, meu irmã mais velho tem autismo.
    Blessings =)
    Staci

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  4. Amigo, que texto lindo. Autistas são a sensibilidade em pessoa, não é?
    Não sei se vc já conhece, mas uma vez li esse texto e me emocionei: http://papodehomem.com.br/carta-ao-irmao-com-autismo/

    Beijos

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  5. Que texto mais lindo!
    Autismo ainda é uma doença pouco compreendida, mas bonita a seu modo. São pessoas tão inteligentes e sensíveis.
    Fazendo uma comparação boba, imagino a cena do filme “Todo poderoso”, onde o Jim Carry, que agora é Deus, ouve as orações de todas as pessoas do mundo de uma vez só. É um filme engraçado 🙂

    Ah! Lembrei da história da Carly. Aqui: http://www.carlyscafe.com/
    Não se você já viu, mas é belíssima (e triste, também).

    Beijos!

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  6. Um artigo enternecedor e verdadeiro, que faz refletir a imensidão que é o amor. Beijo

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