MEU AMOR

Imagemby Fabrício Carpinejar

Todo mundo repara ou lembra quando empenhou a primeira vez eu te amo numa relação.
Qual o momento exatamente. O dia, a hora, os minutos. Após o sexo, embevecido. Ou no cinema escorregando as palavras num beijo. Ou antes de um aceno ao trabalho.
Aquele eu te amo que rodopiou na garganta até ganhar a forma da boca. Aquele eu te amo que fora ensaiado em diversos momentos de alegria, e recuou por vergonha.
Quando ele vem, é um balbucio: estranho, inseguro, desajeitado como um pedido de desculpa.
Sim, o primeiro “eu te amo” é um pedido de desculpa:
– Desculpa, eu te amo.
– Desculpa, eu me ferrei.
– Desculpa, não quis, só que aconteceu.
O primeiro eu te amo é uma série vitoriosa de fracassos. Fracasso da amizade (não consigo ser mais seu amigo). Fracasso da independência (não consigo mais viver longe de você). Fracasso da mentira (não consigo mais mentir para você).
A declaração aparece tímida. Temos que sempre repetir – este é o constrangimento. O primeiro eu te amo nunca é ouvido. E ainda enfrentaremos a pergunta desconfiada de nossa companhia: “O que você disse?”.
Ai, como é sufocante. Muitos mentem e, já acovardados, não insistem. Expor o eu te amo parte de uma tontura, repetir é embriaguez.
O primeiro eu te amo surge com voz de adolescente, aquele timbre indefinido, arenoso: metade infância, metade adulto. Soprado, sussurrado, comovido.
É um caminho sem volta. Um desabafo que se consome em decisão e que se impõe como destino. Depois não tem como alegar que errou, que se confundiu, não há retratação possível, seu advogado não poderá construir nenhuma versão convincente para desfazer o mal-entendido.
Mas o primeiro eu te amo, ainda que represente uma estreia da vida a dois, é discreto diante de outro movimento dos lábios que costuma passar despercebido.
Quando chamamos o nosso par de “Meu Amor”. Quando personificamos o Amor.
Quando ele deixa de ser um nome, alguém, para ser o nosso próprio sentimento.
Quando abandonamos seu registro, seu batismo, para tratá-lo como se fosse a nossa emoção encarnada.
Não tem como consertar, a projeção virou realidade. É quando realmente confiamos nossa individualidade.
É amor para cá, é amor para lá, é amor para acordar, é amor para dormir, é amor para pedir qualquer coisa, é amor no e-mail, no telefone, nos cartões. É amor amor amor infinito, dobrado, multiplicado, incansável.
Está feito o estrago. Se nos despedirmos, se nos separarmos, não estaremos nos afastando de uma pessoa, e sim do Amor.
* Te gosto, te adoro, te venero,…, tudo bem, mas TE AMO, é sério, não é???!!!
-Fonte
Publicado no jornal Zero Hora
Coluna semanal, p. 2, 1/4/2014
Porto Alegre (RS), Edição N° 
17750
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22 responses to this post.

  1. Manoel,
    Dizer “Eu te amo” tornou-se algo tão comum que a palavra pode por vezes ser desvalorizada. Gostar de alguém é uma coisa, amá-lo do coração, poder tudo fazer por ele(a), atravessar todas as provas, tudo aceitar – mesmo o inaceitável, por vezes – é algo que só o amor verdadeiro, aquele que se diz raramente, mas que não tem igual, consegue.
    Beijinhos!

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  2. Querido Manoel, fiquei muito grata com o seu comentário no meu blogue. Ainda bem que gosta. Mas sabe que é recíproco? também gosto muito de aqui vir, embora nem sempre comente. Já percebi que o Manoel é uma pessoa muito espiritual, tal como eu e vir ao seu blogue faz-me bem.
    Este texto que transcreve é uma coisa… Tal e qual. Dá próxima vez que me apaixonar vou tentar não personificar o Amor. Faz todo o sentido. Adorei.
    Beijinhos e bom fim de semana

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  3. Pois é…. muitas vezes acontece… e eis que o nome já não existe, já não existe nada. Só a “emoção encarnada” que passa a ter rosto, nome, sobrenome e vira tudo: o dia e a noite, o alimento que sacia, a água que mata a sede…a salvação e tantas vezes a ruína.
    Certo?
    Errado?
    Quem atira a primeira pedra?
    Um texto reflexivo.

    Beijo ternurento, amigo Manoel.

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  4. Posted by Mariana Gouveia on 3 de abril de 2014 at 16:32

    Também não me lembro quando disse eu te amo pela primeira vez. Acho que foi para uma borboleta e desde então, elas se manifestam em minha vida de variadas maneiras.

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  5. Posted by Marcilane on 3 de abril de 2014 at 13:20

    Pois é, pior é que não esquecemos mesmo, por mais que depois tudo tenha dado errado. Mas pelo menos guardamos uma boa lembrança do que foi.
    Como você disse, meu amor é coisa séria mesmo. Por isso não dá pra sair por aí dizendo Eu te amo para todo mundo, não é verdade? rsrsrs

    Um forte abraço Manô, adorei o texto!
    😉

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  6. Não lembro do meu primeiro “eu te amo”.
    Por isso acho que o primeiro não parte de uma tortura. :/
    Beijos, Aline

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  7. Que bonitinho. Rs. Foi assim que aconteceu comigo e meu namorado. Achei surreal. Eu disse que o amava quando ainda eramos amigos. Estavamos nos despedindo. Ele ficou paralisado. Rs.
    Gostoso, né?

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  8. Confesso que tenho dificuldade com a escrita desse senhor, o Carpinejar. Ele e eu não nos entendemos. Sempre que o encontro aqui eu tento, mas vou lendo-o aos saltos. rs

    Mas digo com certeza que não me lembro da primeira vez que disso “io te amo” porque antes de dizer eu escrevi o que sentia com metáforas porque eu as adoro. Lembro-me de ter sentido aquele olhar pesando sobre minha anatomia no fim de uma tarde de quinta-feira. Era agosto. Ele era estranho e mesmo assim estranhamos nos saber sem nunca antes ter nos visto. Cena de filme. Nos fez rir. A partir de então as coincidências entre nós só fez crescer. E lá se vão dez anos desde que nossos olhos se aventuraram um junto ao outro…

    Mas quando disse a ele essas palavras, não sei. Não lembro. Não guardei – mas guardei o sorriso dele. rs

    bacio

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